Quando as forças ainda se recuam, para o seu canto íntimo interno, quando sua mente ainda se concentra para manter-se calma em corpo. Quando a brasa se levanta mais que o leve fogo ardente da sua fúria, quando a confusão ainda se propaga lentamente por você.
É nesse exato momento que você coloca em questão o que foi e o que está sendo. É nesse vão, mas não tão vão momento, que você lembra de todos os minuciosos detalhes, de todas as pequenas provas de amor, de todos os sorrisos, de tudo que aparentava ser. Aparentava ser, aparentava….
E então, meio que num suspiro de fim e no pausa dramática de contínuo amor, você se põe em legitimidade, alegando ser apenas humana. Alegando que está sofrendo, que está sentindo, que está perdendo.
A dor da perda, é tão dor, quanto a dor da morte. A dor de qualquer perda é dor de luto, é dor que dói. No primeiro instante nem queremos entregá-la a verdade, nem queremos fazer dela real, mas precisamos aceitar que ela está ali.
Perdi.
Mas ainda na enferma quantidade de vontade que tenho, quantidade de sanidade e de salubridade que me permite continuar, eu tento, tento agarrando a vontade do prêmio com todas as forças, agora, já não mais físicas, com todas as forças de alma que tenho a colocar nas minhas mãos.
Tento lutar para que o que era antes, volte. Tento lutar por aquele velho tempo bom. Tento lutar para tê-lo de volta. Ou pelo menos ter a ideia que eu tinha de tê-lo de volta. Luto ainda, porque acredito que valha a pena lutar por alguém que já foi tudo como você.
Mas a cada dia te percebo mais distante, a cada dia te percebo menos. A cada dia mais diferente daquele velho amigo íntimo você parece, cada vez menos confidente, menos confiável, menos real. E não é por culpa tua, nem minha, é apenas porque o nosso tempo se encarregou de assim fazer.
Minhas loucuras, suas loucuras, tudo meio que acabou meio que meio a meio, meio que bagunçado. Tudo se acaba, tudo se acaba…. Tenho que admitir que dói.
Perdê-lo é perder algo a mais. É perder essência que me faz, é perder amigo, é perder vontade, é perder espírito. Você acredita que não pode me perder, que de um jeito ou de outro vai para sempre me ter.
Tenho que te confessar, que talvez não seja bem assim, talvez você me perca por estar me maltratando assim. Me tratando como estranha, como desconhecida, com tanta indiferença, tanto desdém. As vezes acreditamos que vamos ter um amigo para sempre, que aquele amigo nunca vai ceder. Então, esquecemos de regar, esquecemos de cuidar, esquecemos simplesmente que amigos também se perdem.
Ah, veio em tão boa hora… Ah, veio então, boa hora…
Não vá embora não, fique um pouco mais, vou te levar para conhecer meu mundo, te mostrar meus sonhos, e quando estiveres pronta lhe mostrar meus medos. Não tema meu carinho, nem meu aconchego, venha mais perto, venha cá. Quero lhe dar um beijo. Um daqueles de filme, um daqueles bem longos, quero deleitar meus lábios sob os seus e beijar-te como se um dia fosses minha. Venha Felicidade, fica.
Deixe eu abraçar-te como se nada mais importasse, como se você coubesse inteiramente em mim. Deixe que eu a envolva, a acomode e a comova. Quero te persuadir, te convencer a ficar, te mostrar que sou a pessoa certa para você… Ah, minha amada Felicidade, deixe que eu a leve e a guarde sempre junto a mim.
Te protegerei da sua pior inimiga, serei sua eterna amiga, te manterei o mais distante possível de qualquer intriga. Meu maior desejo é te conduzir por toda minha vida. Te comandar ou a possuir, fazer-te minha, e assim, controlar seus surtos, suas vindas, suas idas.
Mas te imploro que fique. Te servirei o melhor da casa, te darei todos os sentimentos que eu possuir, te apresentarei ao Amor, te darei meu corpo, minha mente, minha alma. Serei para sempre sua escrava, se aceitar ser para sempre minha Senhora.
Seja piedosa, seja você, seja intensa e propensa a ser só você. Me traga os teus filhos, me chame de filha também. Me abençoe toda noite, me deixe tocá-la, me deixe senti-la. E jamais me cobre nada, que não seja senti-la.
Já que veio agora, fique até mais tarde, não, não vá embora. Sentirei Saudade.
De mil pecados é feita a minha mentira. Aquela verdade que disse a você, e jurei o eterno que seria assim, lembra? Descobri a pouco que era mentira. Mas não me culpo, e nem a culpo, culpo apenas a inusitada armadilha que eu fui colocada. E gostei, gostei muito de ter sido impulsionada para estar alí, para viver aquilo.
Minha mentirinha é boa, não se preocupe, boa até demais… Gostaria que fosse tivesse sentido também. Ah, arrepios… E ora, o que são mil pecados? Aliás, o que é pecado? Vontade reprimida e julgada assim pela sociedade repressora, só porque não se enquadra no papel de boa-moça? Pois bem, minha mentira é muito boa moça. Tão boa que só ela foi capa de me fazer sentir assim. E de injustiça ela não é feita, muito menos de maldade. Só é um luxo a mais, por qual é bom passar. E vou continuar com ela, e com todas as outras que dela originarem. É tão bom. Não o proibido em si, mas o ato de se libertar de um padrão patético imposto por alguém. E agora vou lhe contar a mais estupenda verdade: Você pediu para eu a cometer.
Esqueça, que de grande sonho há de ter uma paixão,
Que de grande mesmo pode não caber no coração.
De única pode não ter nada, e de várias pode ser,
Constituída por sonhos juntos, para tudo acontecer.
Esqueça, que de grande paixão o tempo vem mostrar,
Só no final que a realidade vem para clarear,
Toda a mente confusa necessita se acalmar,
Para a paz tão almejada em respostas buscar.
Esqueça, que de nada adianta vir só para colorir,
Se ainda não possui nenhum traço desenhado,
É preciso construir as ideias sem deixar nada de lado,
Nenhum detalhe conseguirá no final afogar um sorrir.
Esqueça, que tudo que está na sua volta, sabe desistir,
De tudo que se encontra em outros cantos. É só sorrir.
A grande razão um dia será descoberta, no acordar,
Quando toda a grandeza for alcançada no pintar.
Ah, então tá bom. Na verdade está bom demais assim. Toda música precisa ser dançada, não importa se você não dança. Eu danço por nós dois. Danço todos os dias, e cantarolo também, não importa se não sei fazer música, eu sei senti-la. E é bom demais. Bom demais da conta, tão explosivamente bom, que tenho vontade de transbordar. Esvair em mil pedacinhos por aí, mil pedacinhos de mim, mil pedacinhos felizes de mim.
Poderia viver do som. Do som das vozes que gosto, dos som dos sons da natureza, que tanto idolatro. Poderia viver de todas as vibrações, de todos os lados. Poderia ser mil em uma. Mas ser cem já me faz louca demais, mil eu já não aguentaria, teria que deixar muitas outras que gosto para trás.
Ai que bem que me faz, que bem que me faz. Saber de tudo, e esse tudo inclui um nada, mas sempre ir atrás de saber um pouco mais. Que bem que me faz perceber-me cantante, dançante pelos cantos, pelos meios, por todos os lugares. Posso estar acompanhada ou não, posso estar achada ou perdida demais, mas sempre, sempre haverá algo a mais.
Então você diz que sabe encarar muito bem aquilo que nem ao menos te convém?
Pois bem, encare. E prove-se superficial para continuar a enfrentar tudo. E quando disser que o faz sozinho, não se esqueça de mencionar a verdade, de citar o seu harém.
Mostre-se de uma vez. Pare de colocar máscaras para disfarçar seu rosto. Não se esqueça que os olhos ainda ficam à mostra. Tente levar tudo com mais tranquilidade e se sentir menos ameaçado pela sua pior inimiga.
Como gostaria de dizer eu. Para então, me sentir poderosa como ela.
A vida.
É. Ela mesma, a vida. Aquela que te tanto você se faz vítima, aquela que nega lhe trazer felicidade, aquela que diz só lhe trazer dor. Então faça doer. Se machuque. Seja masoquista com sigo, mas seja. Você tem que gostar muito de se machucar para encarar a vida como dor.
Ela é um tempo. E tempo é a movimentação dos fatos. A vida nada mais é que tempo, apenas isso, uma movimentação qualquer e aleatória até a morte. E a morte? o oposto da vida
Há de ser bonita. Há de ser vivida, e feliz. Não tente colocar mais dor, porque de dor já tem meu sorriso de complacência trazido pela simples angústia de viver. Creio que você também. Apostaria que também carrega o mesmo fardo, a mesma angustia.
Pra que dificultar aquilo que já é difícil? Pra que colocar brilhos em sua pele para ofuscar o tom bege e sem graça dela? Para que se modificar todo? para que lhe causar tanta dor? par que, para que, sofrer?
Perca essa vergonha, perca toda ela, vadie em sua alma, sangre o seu coração, mas se descare. Tire essa sua máscara doída. Você está condenado a viver, portanto faça jus a sua condenação.
Deixe ferir, deixe alegras, suporte o partir, mude ao acordar. Flexibilize-se, morda-se, aperte-se. Dance, dance muito. Suba numa corda bamba e tente chegar ao fim da linha. E quando se encontrar lá, escale. Suba as pedras, e vá até o topo. Você já está condenado, agora viva. Reaja.
Prove-se vítima da vida.
Bem, esse já se classificou em sua posição. Resto. E é bem homogêneo, visto que, se mistura com o que também não é resto, mas normalmente nunca sabemos diferenciar ao certo. Por isso buscamos uma sabedoria na vivência que muitos dizem que está por aí, que acontece e que vive. Mas eu ainda não a encontrei, e aguardo sinceramente, com toda a ânsia de tê-la em mãos.
Já ouvi teorias sobre o amadurecimento, mas nenhuma que me mostre, de fato, o que é. Alguns dizem que esse tal de recimento não existe, mas o endurecimento sim, e a gente encontra na dor. E o Amadu, bem, isso já é um indígena do Vale do Araguaia. Não querendo misturar tudo, mas nesse mundo tudo já está mais que misturado, como disse, o resto com o não resto. Entende? que tudo quer dizer nada? e que nada é o mais próximo do tudo, por assim ser misturado?
Entretanto, venho há anos, tentando descobrir algumas fórmulas. Uma delas é como parar de pensar. Outra é parar de colocar tudo em fragmentos que vocês gostam de chamar de tempo. Para mim, nada é tempo. Tudo é apenas a movimentação dos fatos.
Uma hora é, outra já não é. Mas ninguém sabe, e nunca saberá o que virá. Por isso me dou melhor com o presente, e vivo em luto por um passado nostálgico, e prezo por um futuro qualquer, decente. Infelizmente, sou perpétuo em mente, preso à pensamentos, insuficiente de sentimentos.
-Sim. É claro que existe mais de um mundo.
-Mas, como assim?
-Olha só, existe o mundo do passado, onde tudo que já foi resta ali. E também existe o mundo do Presente, onde acontece o que acontece agora. E claro, o mundo do futuro, onde fica tudo que pode acontecer… ou não.
-Verdade?
-Sim! Mas também há outro mundo.
-E qual é esse?
-É um mundo onde tudo ocorre simultaneamente.
-Parece bem interessante!
-Claro que é! Esse é o mundo em que você vive. Esse aqui mesmo.